ARQUIVO DO SUL |
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Outubro 16, 2007
L'amour selon Lou Andreas-Salomé « On dit couramment que l’amitié permet de garder un sens critique, alors que l’amour est au-delà de toute critique. On dit aussi que l’amitié veut parfois être consciente de ses motivations, mais que dans l’amour, on aime inconditionnellement. Beaucoup excluent cependant les vices moraux. A vrai dire, j’inverserais ces deux propositions. En effet, primo j’ai face à mon mari une attitude plus critique que celle que j’avais vis-à-vis de mon ami, c’est-à-dire Rée, et secondo mes sentiments envers ce dernier dépendaient beaucoup moins de mon jugement sur lui que ceux que j’éprouve envers mon mari. Pendant la longue période où nous vécûmes ensemble liés de profonde amitié, je m’efforçais de voir Rée avec calme et objectivité. Je découvris en lui des côtés très charmants et d’autres qui me déplaisaient foncièrement. Mais le fait qu’il s’agissait de lui faisait que pour moi tous ces côtés avaient presque la même valeur ; je l’aimais de tout cœur, tel qu’il était, et s’il avait été quelque peu différent, cela n’aurait rien changé. Mon amour pour mon mari commença par une exigence intérieure – je ne puis l’exprimer autrement. C’est ce qui fit naître la critique, une critique qui allait jusqu’à la douleur. Celle-ci était liée à l’intérêt qu’avait le résultat de cette critique, tandis que vis-à-vis de Rée ce résultat avait moins d’importance. Cela me semble tout à fait naturel. Il y a une différence entre chercher à nouer simplement des liens d’amitié ou des liens de mariage. Car dans ce dernier cas, on a non seulement un sentiment de sympathie beaucoup plus fort, mais l’intention de renoncer à son individualité. Et je trouve cela d’autant plus naturel que cela n’a rien à voir avec le fait de marchander et d’exiger des privilèges plus ou moins grands pour lesquels on est prêt à se lier et à se donner. Ce n’est pas du tout qu’on se lie, mais qu’on est lié – la question est : y a-t-il en nous quelque chose qui fait que nous sommes déjà liés par des liens de mariage – quelque chose qui dépasse tous les intérêts de l’amitié, quelque chose de beaucoup plus profond et de plus élevé, une sorte de sommet auquel tous deux nous voulons nous élever ? Il s’agit donc de discerner si on fait déjà partie l’un de l’autre (et pas seulement si on s’appartient l’un l’autre), et ceci au sens presque religieux, du moins purement idéel du terme. Certes l’amour en lui-même n’est pas purement idéel, mais – par Dieu – je n’ai jamais compris pourquoi des gens se marient quand ils s’aiment surtout physiquement. C’est pourquoi l’amitié peut souvent faire preuve de plus d’indulgence que l’amour, et il est juste d’affirmer que l’amour et le mépris s’excluent. J’ajoute seulement ceci : ce qu’on appelle le respect moral n’en fait pas partie ; l’amour peut même tolérer le crime, mais il ne faut pas toucher aux lieux où chacun place sa propre morale individuelle, aux lieux où plongent les racines de son adoration et de sa vénération, car c’est justement en ces lieux, sommets et abîmes, que deux personnes doivent s’accorder ; et quand il apparaît qu’il y a erreur, il n’est pas besoin de crime pour tuer l’amour. L’homme que j’ai aimé sans le critiquer fut Gillot, bien que je l’aie vraiment aimé, je veux dire, comme un idéal. Cette différence par rapport à ma sensibilité d’aujourd’hui – la seule désormais possible – est due aux années : quand on est très jeune, l’idéal auquel on aspire s’incarne totalement dans une personne, et c’est à cause de cette identification qu’on l’aime. Par la suite, on sépare plus nettement les personnes et les idées, on ne cherche plus un Dieu-Homme, mais on s’unit et on se voue ensemble à ce qu’ensemble on estime et vénère. Il n’y a plus un être qui s’agenouille devant l’autre, mais deux êtres qui s’agenouillent ensemble. Dans le premier cas, il s’agit d’un individu qui veut dominer et influencer fortement autrui – comme Gillot –, dans le deuxième cas, il s’agit de Fred(eric) avec sa manière de vivre et d’aimer, de se consacrer à ce qu’il estime précieux et noble, de sentir les choses, de haïr profondément la malhonnêteté, les faux-semblants, l’hypocrisie, et d’aspirer à la connaissance. » Lou Andreas-Salomé, Journal LOU ANDREAS-SALOMÉ
A felicidade sela uma forma de abertura. Mas a que «infinito» se abandona a viajante? O Deus com que depara por toda a parte na Rússia tem o rosto sombrio dos ícones defumados. Não é o Deus de nenhuma igreja. Figura susceptível de qualquer projecção imaginária, dissolver-se-ia numa realidade inapreensível sem o artigo definido que o cerca. Tal como a natureza, que, à semelhança dele, fala das energias secretas da infância, não é capaz de justificar o movimento através do qual a tensão — na qual assenta toda a edificação da existência até ao presente — cederia ao acolhimento. O frente-a-frente face ao espelho, que ressoará no conjunto da existência e da obra posteriores, longe de fazer saltar os últimos ferrolhos, ilustra uma fascinação, que reside no temor do que separa e serve de margem, o sexo e a consciência individual. Assim, a plenitude vivida pelo eu, retemperado nas suas origens, faz uma vítima imediata: Rilke, o companheiro de viagem, o amante eleito para esse périplo preparado em conjunto desde há muito. O jovem e frágil poeta de vinte e cinco anos, esse novo Francisco de Assis que a seguiu pelas estradas da Rússia, colhendo uma seara de imagens para celebrar uma humanidade sumptuosa no seu despojamento, esse «filho», esse «irmão», esse «amante», para usar a linguagem dos tempos míticos em que as três qualidades não estavam dissociadas, desaparece do campo da consciência. Expulso por tamanho esplendor. De algum modo, consumido. Lou, catorze anos mais velha, fora todavia seduzida pelo encontro com o poeta em Munique três anos antes. Enaltecera a realidade incontestável do homem, o primeiro, segundo ela, a manifestar uma íntima harmonia entre o corpo e o espírito, O narcisismo de Lou Andreas-Salomé e a sua absorção no infinito exigem o sacrifício dos indivíduos, esquecidas a paixão, o vínculo existencial, a comunhão extraordinária no fim da qual ela pretendia dar ao poeta de Praga, espoliado da sua infância, uma pátria, uma infância — as suas raízes russas a alimentarem com a sua seiva o poeta condenado aos limbos, desde que ele não refizesse o caminho que outrora o frustrara. Reflectida pelas águas, solidária com os bosques e com a natureza que se projecta neste espelho cósmico, a imagem de Lou, como sucede na lenda clássica, aniquila o parceiro. A superfície polida das águas exclui outrem, votando-o à morte que arrebatou a ninfa Eco, desprezada por Narciso. Mais umas horas e a viajante já não dormirá com o homem de riso cristalino, tão masculino e soberano já, a despeito da sua juventude, com quem percorria Moscovo de mãos dadas algumas semanas antes, por altura da Páscoa. Não tardará a abandoná-lo nas bibliotecas de São Petersburgo para prosseguir sozinha o seu caminho. A impaciência de Rilke, as cartas insistentes enquanto ela se demora nas margens do golfo da Finlândia, tornam-se-lhe insuportáveis. O ano não chegará ao fim sem que, de regresso à A1emanha, ela registe no seu Diário, em 31 de Dezembro, a decisão irrevogável de se separar de Rilke a todo o custo. (…) o abandono de Rilke denuncia uma certa dureza: quem é esta mulher para quem o acesso a si mesma passa infalivelmente pelo afastamento do companheiro? Passado o deslumbramento inicial, Rilke, por seu turno, é considerado como que um parasita. A angústia que o atormenta e da qual a amante se sente incapaz de o redimir, leva-a a temer a sua própria alienação como pura perda, ao que acresce uma convicção cruel: o amor não pode durar. O amante torna-se rapidamente supérfluo e Lou liberta-se dele. Depois de Gillot e Nietzsche, Rilke vai inscrever-se na lista daqueles que ela deixa pelo caminho, incapaz da mínima fidelidade. Mas é fiel às recordações, sim, embora ignorando sistematicamente as ligações humanas duradouras. Um traço de personalidade que ainda reivindica nos seus últimos anos. É assim, no meio-dia da sua vida, essa mulher intrépida, empenhada nas mais extremas explorações humanas e intelectuais desde que isso abra nela terras inexploradas. (…) «Sarça ardente», dirá dela Rilke em 1912. Personalidade brilhante sem dúvida, que longe de se confundir com as imagens que amava multiplicar (para melhor enlouquecer os olhares masculinos), vai buscar uma energia inesgotável ao mais íntimo de si-mesma. (…) Para usar uma imagem da correspondência, a própria vida seria um maciço de flores desabrochando com toda a energia em pleno estio. E prossegue: gostávamos de possuir seis mãos para aí as mergulharmos com inebriamento e colher uma profusão de ramos. Esta confissão testemunha a temeridade de alguém que se atira para a frente na vida. Manifesta a tentação de fugir às limitações humanas e, antes de mais, ao corpo que refreia os impulsos da alma. Os excessos velam com dificuldade um desespero latente: a mulher, como diz um poema de juventude, não hesita em chamar a si as dores se a vida não tiver mais alegrias para lhe dar. Sarça-ardente? A intuição do poeta capta na metáfora bíblica algo do mistério de Lou. (…) Lou Andreas-Salomé nunca deu uma imagem mais bela dessa força vital que a anima do que no opúsculo que dedica a Freud em 1931, e onde fala da inovação introduzida pela Psicanálise, quando estremecem as águas subterrâneas. Decerto, como acabámos de ver, que essas águas transportam elementos arcaicos nas suas vagas confusas. Segundo Lou, a felicidade mantém de bom grado à distância o que lhe resiste ou divide o homem interiormente. Ao contrário de Baudelaire, que ela não aprecia, Lou não cultiva o despedaçamento. Mas não enjeita o risco. Por isso, o despertar que anima as águas adormecidas contém uma promessa. Feiticeira, Lou sabe espiar os sinais com um juízo infalível. A sua generosidade detecta-os e incentiva-os, quer no caso de Rilke quer no mais modesto dos seus pacientes. A mulher, a romancista, a ensaísta, a analista, pertenceria à família dos desbravadores e dos inventores, frequentemente solidários com as mais nobres realizações, se não se tivesse confrontado em si mesma com as situações mais extremas e não participasse nos bloqueios de que o indivíduo padece? (pp-17-20) Lou contribuirá para o lançamento das bases de uma nova antropologia. Entende que se deve romper quer com o idealismo vão e com o romantismo desacreditado, herdados do passado e incapazes de fazer face aos desafios do presente, quer com o pessimismo contemporâneo inspirado por Feuerbach e Schopenhauer, em sua opinião igualmente desajustado das realidades da vida. A resposta que propõe, e que vai ao arrepio das posições dominantes, assenta na estabilidade pessoal. Irradia um equilíbrio e uma harmonia que a mulher foi construindo progressivamente a partir dos ricos elementos da sua experiência.
Os antagonismos em que o pensamento contemporâneo se baseia, defende a ensaísta, são artificiais e só poderão engendrar bloqueios. Sofrimento e felicidade, a passividade que supostamente afecta o ser sensível e a afirmação do eu que caracterizaria o indivíduo superior apto a agarrar a vida, a pobreza do homem e a riqueza de Deus, depositário de todas as realizações que a humanidade coloca nele — todas essas oposições são fictícias, defende Lou. Só existem perante o medo. Que usura afecta a linguagem e paralisa a experiência? Porque a embriaguez do amor carnal ou da criação artística, todos os momentos criadores em geral em que o homem é arremessado para lá de si mesmo, testemunham uma outra realidade. Nesses momentos fulgurantes que rompem a banalidade do quotidiano, o homem sente-se solidário com uma totalidade que o fundamenta e que é, porventura, a sua verdadeira pátria. Comunga de uma unidade. O medo da vida leva-nos a rejeitá-la. Pretender firmar-se na alegria é tão quimérico como acreditar na transparência entre os seres. Os amantes não representam metades complementares nem indissociáveis. «Permanecer para sempre estranhos um ao outro numa eterna proximidade, eis a lei mais profunda do amor, que jamais se perde», escreve ela com firmeza. E prossegue: «de cada vez que seres humanos se amam, um dos parceiros só aflora muito levemente o outro e abandona-o a si mesmo. Nunca amamos senão uma estrela inacessível, e o amor não deixa de ser na sua derradeira essência uma tragédia — constatação a partir da qual eclode a sua fecundidade e a sua força». Porém, se encarar a vida de frente, ratificando solidariamente a alegria e a dor que ela traz consigo, o criador aceita-a como uma dádiva. Segundo uma fórmula magnífica que muito deve à experiência pessoal, sente-se ao mesmo tempo «criança e rei» de um mundo em perpétua gestação. A arte e a ciência, a ética e a vida, unem-se numa visão, e não podemos deixar de sublinhar até que ponto, a despeito dos seus esforços para estreitar a realidade, ela é o reflexo do imaginário de uma mulher embalada pela felicidade e que, mesmo no sofrimento e na confusão, jamais duvidou da reconciliação. É a Nietzsche, incontestavelmente, que Lou deve a aceitação da vida, em cuja defesa se empenha. Esse sim dito à vida, às dores e às alegrias que ela acarreta, é retomado palavra a palavra do filósofo. Mas a ensaísta rejeita a mística do super-homem. As intermitências através das quais participamos na plenitude da existência, através das quais o ser se nos revela como criador, são partes constitutivas do nosso destino. A felicidade é excepcional, o encontro com outrem é ilusório. Por mais fecundo que o arrebatamento amoroso seja de facto, deixamo-nos inebriar por uma ilusão, por uma projecção imaginária de nós mesmos. Uma vez aceite este aspecto trágico, a nossa fragilidade pode ser arrastada por breves experiências que nos justificam. Nesses instantes, os parceiros amorosos conseguem representar um para o outro «amantes, esposos, irmãos e irmãs, amigos, pais, camaradas, crianças que brincam, juízes severos, anjos plenos de perdão». Certamente um inebriamento, mas criativo e aparentado ao inebriamento do artista. Através de um movimento em retorno, a análise alimenta-se, assim, dos melhores momentos passados com Rilke. Mas isso transporta, porém, no coração do desejo um distanciamento que este ainda ignora e que o vai fazer sofrer. Talvez não seja despropositado notar desde já que esse distanciamento, sem deixar de ter uma certa afinidade com a parte de exílio que Freud alojará no coração do desejo, se distingue contudo por dois traços essenciais. Em primeiro lugar, com efeito, Lou apresenta a individualização não tanto como separação em relação a outrem mas em relação à vida em geral. E, um segundo ponto de divergência, ela vê aí um acidente que deve ser reparado, enquanto Freud, mais radical, inscreve essa desarmonia no interior de nós mesmos, considerando-a um dado fundamental da condição humana. Essa fé numa possível restauração da unidade — na qual a mulher, mercê de uma vantagem inestimável, participaria de modo eminente — explica o esplendor feminino, a sua derradeira soberania. (pp153-154) O excesso de felicidade esbatia a personalidade de Rilke. (…) A Rússia toma corpo. A celebração ainda abstracta dos ensaios supera-se na presença sensual de uma paisagem, de uma igreja, de um palácio ou de uma isba de camponeses. Aos quarenta anos, a mulher floresce de novo: a vida vem ao seu encontro. Porém, a viagem marca também uma viragem. Não há lugar para todos no banquete da vida. Rilke transforma-se num obstáculo. As últimas linhas do Diário concluem com uma revelação tirânica: ele tem de partir. (pág. 174) Stéphane Michaud, Lou Andreas-Salomé, Edições Asa, Porto, Col. Clepsidra, Retratos e Memórias, 2001 Abril 9, 2007
As Velas Ardem até ao Fim
As duas vidas rolavam juntas com o movimento de ritmo lento da vida de corpos muito velhos. Sabiam tudo um do outro, conheciam-se melhor que mãe e filho, melhor que os casais. A comunhão que unia os seus corpos era mais íntima que qualquer outro laço corporal. Talvez a razão fosse o leite materno. Talvez porque Nini fora o primeiro ser vjvo a ver o general quando ele nasceu, porque o vira no momento do nascimento, coberto de sangue e de imundícies, como as pessoas vem ao mundo. Talvez fossem os setenta e cinco anos que tinham vivido juntos, debaixo do mesmo tecto, comendo a mesma comida, respirando o mesmo ar; o bolor da casa, as árvores em frente das janelas, tudo era comum. E nada disto tinha nome. Não eram irmãos, nem amantes. Existe outra coisa, e eles sabiam isso vagamente. Existe um certo tipo de amizade que é mais profunda e mais densa do que a dos gémeos no útero materno. A vida misturava os seus dias e as suas noites, sabiam do corpo e dos sonhos do outro. (pág. 14) A primeira palavra íntima que disseram um ao outro era o nome da pátria. (pág. 19) Sentia-se nos puxadores das portas o tremor duma mão, a emoção dum momento passado quando a mão hesitava em puxar essa maçaneta. Todas as casas onde a paixão tocou as pessoas com a sua força arrebatadora se enchem desse conteúdo obscuro. (pág. 23) [...] tal como o desejo surge entre pessoas de uma forma inconsciente e desfigurada, quando alguém, pela primeira vez, quer separar do mundo o corpo e a alma de outra pessoa, para a possuir de uma maneira exclusiva. É esse o sentido do amor e da amizade. A amizade deles era tão séria e silenciosa, como todos os grandes sentimentos que duram uma vida inteira. E tal como todos os grandes sentimentos continha também certo pudor e sentimento de culpa. Uma pessoa não pode apropriar-se de outra, separando-a das restantes. (pp. 29-30) Essas mulheres traziam para as suas vidas o encanto dos primeiros amores e tudo aquilo que o amor significava: o desejo, os ciúmes e a solidão desconcertada. Mas atrás das mulheres, das representações e do mundo oscilava um sentimento mais forte que todos os outros. Só os homens conhecem esse sentimento. Chama-se amizade. (pág. 48) A minha pátria [...]deixou de existir, desintegrou-se. [...] Aquilo que uniu as partes, aquele elemento misterioso de ligação já não faz efeito. [...] A minha pátria era um sentimento. (pp. 69-70) Sim, os pormenores, às vezes, são muito importantes. Dum certo modo ligam todo o conjunto, colam a matéria base das recordações. (pág. 72) Porque nos segredos que existem entre ti e mim, há uma força singular. Queima o tecido da vida como uma radiação maligna, mas, ao mesmo tempo, também dá calor e mantém a tensão. Obriga-te a viver... Uma pessoa vive enquanto tem coisas para fazer nesta terra. [...] A solidão também é uma coisa bastante curiosa¿ às vezes é como uma selva cheia de perigos e de surpresas. Conheço todas as suas variantes. O tédio que queres afastar em vão, com um modo de vida construído artificialmente. Depois as crises súbitas. A solidão também é tão misteriosa como a selva. (pp. 77-78) O mundo já não pode fazer nada contra mim. Novas ordens do mundo podem aniquilar o modo de vida em que nasci e vivi, forças tumultuosas e agressivas podem matar-me e tirar-me a liberdade e a vida. Tudo isso é indiferente. O importante é que eu não faço acordos com o mundo que conheci e exclui da minha vida. (pág. 79) Talvez exista uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas. Aqui, na solidão e na floresta, enquanto tentava perceber todas as questões da vida, visto que não tinha outra coisa para fazer, por vezes pensei nisso. Naturalmente, a amizade não tem nada a ver com a inclinação doentia de algumas pessoas que procuram uma satisfação disforme com pessoas do mesmo sexo. O Eros da amizade não precisa do corpo, longe disso, incomoda mais do que o excita. Porém, não deixa Eros. Eros está no fundo de todos os afectos, de todas as relações humanas. [...] O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. (pp. 81-82) Afinal, uma pessoa sempre responde com a sua vida às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem, mostraste ser corajoso ou cobarde?... [...] O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida. (pp. 88-89) [...] o destino não é fortuito, nem um acidente, mas a consequência natural de circunstâncias correlacionadas, imprevisíveis e dificilmente inteligíveis. (pág. 94) A noite ainda está viva no fundo da floresta: a noite e tudo que esta palavra significa, com a consciência da presa, do amor, do vaguear, do prazer de viver desinteressado e da luta pela sobrevivência. É o momento em que não apenas nas profundidades da floresta, mas também na obscuridade dos corações humanos acontece algo. Porque os corações humanos também têm as suas noites, cheias de emoções tão selvagens, como os impulsos da caça que assaltam o coração do veado ou do lobo. O sonho, o desejo, a vaidade, o egoísmo, a ira lasciva do macho, a inveja, a vingança, essas paixões ocultam-se de tal modo na noite da alma humana, como o puma, o abutre e o chacal no deserto da noite do Oriente. Existem momentos em que já não é noite e ainda não é dia no coração humano, quando as feras saem dos esconderijos sombrios da alma, quando estreme o nosso coração e se transforma em movimento na nossa mão uma paixão que formámos e domesticámos em vão durante anos, às vezes durante muito tempo... E tudo foi em vão [...] (pág. 98) Porque a paixão não argumenta com palavras de razão. Para a paixão é completamente indiferente aquilo que recebe do outro, quer exprimir-se por inteiro, quer transmitir a sua vontade, mesmo que se não receba em troca mais do que sentimentos ternos, cortesia, amizade ou paciência. Todas as grandes paixões são sem esperança, de outra forma não seriam paixões, apenas acordos, compromissos razoáveis, trocas de interesses banais. (pág. 99) É a maior tragédia com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano. [...] Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmos e avidez, não os mudam a experiência, nem a compreensão. Temos de aceitar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos não nos amem, ou não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infedilidade, e o que é mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de outra pessoa. (pág. 100) [...] as coisas começaram a falar-me nesse dia, aconteceu alguma coisa, a vida dirigiu-se a mim. Nesse caso tenho de prestar muita atenção, penso. Porque a linguagem simbólica e singular da vida fala-nos de mil maneiras diferentes nesses dias, tudo chama a nossa atenção, cada sinal e imagem é preciso apenas compreendê-los. Um dia as coisas amadurecem e respondem. (pág. 133) [...] a minha vida tinha-se partido em dois, como uma paisagem rasgada por um terramoto ¿ de um lado ficou a infância [...]; do outro lado começa aquele território obscuro e imenso que tenho de percorrer, o tempo que me resta para viver. E as duas partes da minha vida já não se tocam (pág. 114) Como todas as pessoas que os deuses amam sem qualquer razão, no fundo dessa felicdade sinto uma certa angústia. Tudo é demasiado bonito, sem rupturas, perfeito. Uma pessoa tem sempre medo duma felicidade tão ordenada. (118) [...] o edifício [...] parece tão misterioso, como se encerrasse toda a tristeza de que os corações humanos adoecem. (126) [...] relações entre homem e mulher, amizades, relações mundanas, tudo depende disso: das diferenças que dividem a humanidade em dois grupos. Às vezes penso que só existem esses dois grupos no mundo, e todas as variantes da sua diversidade, as diferenças de classe social, de ideologia e de graus do poder, tudo advém dessa diversidade. E, tal como apenas as pessoas do mesmo grupo sanguíneo podem ajudar-se nos momentos do perigo, ao dar o seu sangue a alguém que pertence ao mesmo grupo, assim a alma humana só pode ajudar outra alma humana, se não for «diferente», se o seu ponto de vista, a sua realidade mais secreta que a sua convicção, forem semelhantes... E ali, em Arco, senti que a festa acabara, que a Krisztina também era «diferente». Lembrei-me das palavras do meu pai, que não lia livros, mas a quem a solidão e a vida tinham ensinado a conhecer a verdade; ele sabia dessa diversidade, sim, ele também tinha encontrado uma mulher a quem amava muito, a cujo lado, porém, se sentia sozinho, porque eram duas pessoas diferentes, dois temperamentos, dois ritmos de vida distintos, porque a minha mãe também era «diferente», como tu, como a Krisztina... Em Arco vim a saber mais alguma coisa. O sentimento que me unia a minha mãe, a ti e à Krisztina, era o mesmo: a mesma saudade, a mesma esperança incessante, a mesma vontade impotente e triste. Porque amamos sempre a pessoa «diferente», procuramo-la em todas as situações e variantes da vida, sabes? O maior segredo e a maior dádiva da vida, quando duas pessoas «semelhantes» se encontram. Isso é tão raro, como se a natureza impedisse com força e astúcia essa harmonia, talvez porque para a criação do mundo e para a renovação da vida necessita da tensão que se gera entre as pessoas que se procuram eternamente, mas que têm intenções e ritmos de vida opostos. Sabes, corrente alterna.., onde quer que olhes, lá está essa troca de forças positivas e negativas. Quanto desespero, quanta esperança cega existe atrás dessa tal diversidade! (pág. 127) Era uma pessoa soberana por dentro, e isso é muito raro; ser independente, tanto em mulheres como em homens é uma qualidade rara. (pág. 129) [...] a consciência soberana dos sentimentos incondicionais (pág. 129) Sobreviver a alguém, a quem amámos tanto que teríamos sido capazes de matar por ela, sobreviver a alguém, a quem estávamos ligados de tal maneira que quase morremos por isso, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida. (pág. 151) No fim, o mundo não importa nada. Só importa o que fica nos nossos corações. (pág. 151) Pensas também que o significado da vida não seja outro senão a paixão, que um dia invade o nosso coração, a nossa alma e o nosso corpo, e depois arde para sempre, até à morte? Aconteça o que acontecer? E que se nós vivemos essa paixão, talvez não tenhamos vivido em vão? É assim tão profunda, tão maldosa, tão grandiosa e desumana a paixão?... E talvez não se dirija a uma pessoa em concreto, mas apenas ao desejo mesmo?... Essa é a pergunta. Ou dirige-se a uma pessoa em concreto, desde sempre e para sempre à única e mesma pessoa misteriosa, que pode ser boa ou má, mas cujas acções e qualidades não influenciam a intensidade da paixão que nos une a ela? (pág. 152) Beijam-se. É um beijo estranho, breve e singular: se alguém o visse, sorria de certeza. Mas como todos os beijos humanos, este também é uma resposta, à sua maneira disforme e terna, a uma pergunta que não se pode dizer com palavras. (pág. 153) Sándor Márai, As Velas Ardem até ao Fim, Dom Quixote, colecção Ficção Universal, 8ª ed., Lisboa, 2005 Janeiro 2, 2007
L'amoureuse Elle est debout sur mes paupières Et ses cheveux sont dans les miens, Elle a la forme de mes mains, Elle a la couleur de mes yeux, Elle s'engloutit dans mon ombre Comme une pierre sur le ciel. Elle a toujours les yeux ouverts Et ne me laisse pas dormir. Ses rêves en pleine lumière Font s'évaporer les soleils, Me font rire, pleurer et rire, Parler sans avoir rien à dire. Paul Eluard Outubro 21, 2006
RILKE Porque é culpa, se alguma coisa é culpa, não multiplicar a liberdade de um ser amado de toda a liberdade que em nós possamos achar. Onde amamos, temos apenas isto: deixar-nos uns aos outros; porque prender-nos é-nos fácil e não é preciso aprendê-lo. Rainer Maria Rilke, Requiem para uma amiga MUITO DISTANTE Muito distante a cidade o alinhamento em fuga das ruas. Cercada de luz a escura preia-mar das montanhas, até o debrum das últimas encostas até a clareira onde começa o mar. Muito distante do tempo a casa o lugar de morar e estar à vontade Aí o silêncio torna-se muito. Um portão, um caixilho, encontro Imagem e fuga. Alois Hergouth (1925-2002), tradução de Celeste Aida Galeão Junho 29, 2006
APROXIMAÇÃO AO ABSURDO «Ele tinha visto quão improvável é termos de vir uns dos outros e quão improvável é o virmos realmente uns dos outros. Nascimento, sucessão, as gerações, a história - absolutamente improvável. Ele tinha visto que não vimos uns dos outros, que apenas parece que vimos uns dos outros. (...) A ordem é mínima. Ele pensara que quase tudo era ordem e que a desordem era apenas um bocadinho. Afinal era ao contrário. (...) O velho sistema que criou a ordem já não funciona. Tudo o que lhe restava era o medo e o espanto mas agora escondidos por detrás do nada.» Philip Roth, Pastoral Americana, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999 Junho 21, 2006
Paisagem com Inundação Oh, se as aves cantassem e as nuvens suspirassem de afecto e o olho, acentuando o seu azul ao perseguir a coloratura, pudesse distinguir as chaves na porta e, por cima, um tecto, e aqueles que agora já estão em parte nenhuma. Caso contrário, tudo não passa duma mudança de cadeiras e de sofás. E de flores encaixilhadas nas paredes e em vasos. E se houver no mundo uma abelha sem colmeia e com excesso de pólen nas patas, essa abelha és tu. Oh, se um dia lá no azul profundo as coisas transparentes conseguissem separar a rédea à sua invisibilidade e se condensassem numa estrela ou lágrima neste lado da estratosfera, e depois, em todo o lado. Mas, visivelmente, o ar parece ser apenas o fio com que se fez a renda no bastidor, no parque onde o czar se dava ao pastoreio. E as estátuas gelaram como se no pátio das alunas nobres houvesse um decembrista, posteriormente executado, e chegou Janeiro. Joseph Brodsky, (1940-1006) "Paisagem com inundação, tradução de Carlos Leite, Edições Cotovia Maio 15, 2006
Antologia A vida Não vale a pena e a dor de ser vivida. Os corpos se entendem mas as almas não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. (...) Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 MINHA GRANDE TERNURA Minha grande ternura Pelos passarinhos mortos, Pelas pequeninas aranhas. Minha grande ternura Pelas mulheres que foram meninas bonitas E ficaram mulheres feias; Pelas mulheres que foram desejáveis E deixaram de o ser; Pelas mulheres que me amaram E que eu não pude amar. Minha grande ternura Pelos poemas que Não consegui realizar. Minha grande ternura Pelas amadas Que envelheceram sem maldade. Minha grande ternura Pelas gotas de orvalho que São o único enfeite De um túmulo. Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 PASSADO, PRESENTE E FUTURO Só o passado nos pertence. O presente não existe: Le moment où je parle est déjà loin de moi. O futuro diz o povo que a Deus pertence. A Deus... Ora, adeus! Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 POEMAS TRADUZIDOS por MANUEL BANDEIRA Tríade São três Coisas silenciosas A neve que cai... a hora Antes da alva... a boca de alguém Que acabou de morrer. Adelaide Crapsey, trad. de Manuel Bandeira, Poemas Traduzidos, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 p Outrora e Hoje Meu dia outrora principiava alegre; No entanto à noite eu chorava. Hoje, mais velho, Nascem-me em dúvida os dias, mas Findam sagrada, serenamente. Nove Poemas de Hoelderlin, trad. de Manuel Bandeira, Poemas Traduzidos, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 A cigarra... Ouvi: Nada revela em seu canto Que ela vai morrer. Quatro Haicais de Bashô, trad. de Manuel Bandeira, Poemas Traduzidos, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 Só é meu O país que trago dentro da alma (...) em Um Poema de Chagal, trad. de Manuel Bandeira, Poemas Traduzidos, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993 Abril 22, 2006
UTOPIA DE UMA EXPLORAÇÃO SEM LIMITES - Pierre Bourdieu O mundo económico é realmente, como pretende o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, desenvolvendo implacavelmente a lógica das suas consequências previsíveis, e disposto a reprimir todas as transgressões com as sanções que inflige, seja de forma automática, seja - mais excepcionalmente - por mediação dos seus braços armados, o FMI ou a OCDE, e das políticas que estes impõem: redução do custo da mão-de-obra, restrição das despesas públicas e flexibilização do mercado de trabalho? E se não fosse, na realidade, mais do que a posta em prática de uma utopia, o neoliberalismo, desse modo convertida em programa político, mas uma utopia que, com a ajuda da teoria económica de que se reclama, chega a pensar-se como a descrição científica do real? Esta teoria tutelar é uma pura ficção matemática, baseada, desde a sua origem, numa formidável abstracção: a que, em nome duma concepção tão estreita como estrita da racionalidade, identificada com a racionalidade individual, consiste em pôr entre parênteses as condições económicas e sociais das orientações racionais e das estruturas económicas e sociais que são a condição do seu exercício. Para perceber a dimensão destes aspectos omitidos, basta pensar no sistema de ensino, que nunca é tido em conta enquanto tal num momento em que desempenha um papel determinante na produção de bens e serviços, assim como na produção dos produtores. Desta espécie de pecado original, inscrito no mito walrasiano da teoria pura, derivam todas as carências e todas as ausências da disciplina económica, e a obstinação fatal com que se apega à oposição arbitrária a que dá lugar, pela sua mera existência, entre a lógica propriamente económica, baseada na concorrência e portadora de eficácia, e a lógica social, submetida à regra da equidade. Dito isto, esta teoria originariamente dessocializada e deshistorizada tem, hoje mais do que nunca, os meios de se converter em verdade, empiricamente verificável. Com efeito, o discurso neoliberal não é um discurso como os outros. À maneira do discurso psiquiátrico no asilo, segundo Erving Goffman, é um discurso forte, que só é tão forte e tão difícil de combater porque dispõe de todas as forças de um mundo de relações de força que ele contribui a formar tal como é, sobretudo orientando as opções económicas daqueles que dominam as relações económicas e somando assim a sua própria força, propriamente simbólica, a essas relações de força. Em nome desse programa científico de conhecimento, convertido em programa político de acção, leva-se a cabo um imenso trabalho político (negado já que, em aparência, puramente negativo) que trata de criar as condições de realização e de funcionamento da teoria; um programa de destruição metódica dos colectivos. O movimento, tornado possível pela política de desregulamentação financeira, no sentido da utopia neoliberal dum mercado puro e perfeito, realiza-se através da acção transformadora e, há que dizê-lo, destruidora de todas as medidas políticas (cuja mais recente é o AMI, Acordo Multilateral de Investimentos, destinado a proteger as empresas estrangeiras e os seus investimentos contra os Estados nacionais), visando pôr em questão todas as estruturas colectivas capazes de colocar obstáculos à lógica do mercado puro: a nação, cuja margem de manobra não cessa de diminuir; os grupos de trabalho, com, por exemplo, a individualização dos salários e das carreiras em função das competências individuais e a atomização dos trabalhadores que daí resulta; os colectivos de defesa dos direitos dos trabalhadores, sindicatos, associações, cooperativas; a própria família, que, através da constituição de mercados por classes de idade, perde uma parte do seu controlo sobre o consumo. O programa neoliberal, que extrai a sua força social da força político-económica daqueles cujos interesses expressa - accionistas, operadores financeiros, industriais, políticos conservadores ou social-democratas convertidos à deriva cómoda do laisser-faire, altos executivos das finanças, tanto mais encarniçados em impor uma política que prega o seu próprio ocaso quanto, à diferença dos técnicos superiores das empresas, não correm o perigo de pagar, eventualmente, as suas consequências -, tende a favorecer globalmente a ruptura entre a economia e as realidades sociais, e a construir deste modo, dentro da realidade, um sistema económico ajustado à descrição teórica, quer dizer, uma espécie de máquina lógica, que se apresenta como uma cadeia de restrições que arrastam os agentes económicos. A mundialização dos mercados financeiros, em conjunto com o progresso das técnicas de informação, garante uma mobilidade de capitais sem precedentes e proporciona aos investidores, preocupados com a rentabilidade a curto prazo dos seus investimentos, a possibilidade de comparar de maneira permanente a rentabilidade das maiores empresas e de sancionar em consequência os fracassos relativos. As próprias empresas, colocadas sob uma tal ameaça permanente, devem ajustar-se de forma mais ou menos rápida às exigências dos mercados; isso sob pena, como alguém disse, de «perder a confiança dos mercados», e, ao mesmo tempo, o apoio dos accionistas que, ansiosos por uma rentabilidade a curto prazo, são cada vez mais capazes de impor a sua vontade aos managers, de lhes fixar normas, através das direcções financeiras, e de orientar as suas políticas em matéria de contratação, de emprego e de salários. Deste modo instaura-se o reino absoluto da flexibilidade, com os recrutamentos sob contratos temporários ou os substitutos temporários ou os planos sociais reiterados, e, no próprio seio da empresa, a concorrência entre filiais autónomas, entre equipas constrangidas à polivalência e, finalmente, entre indivíduos, através da individualização da relação salarial: fixação de objectivos individuais; entrevistas individuais de avaliação; avaliação permanente; subidas individualizadas de salários ou concessão de prémios em função da competência e do mérito individuais; carreiras individualizadas; estratégias de "responsabilização" tendentes a assegurar a autoexploração de certos técnicos superiores que, meros assalariados sob forte dependência hierárquica, são ao mesmo tempo considerados responsáveis das suas vendas, dos seus produtos, da sua sucursal, do seu armazém, etc., como se fossem "independentes"; exigência de autocontrolo que estende a "implicação" dos assalariados, segundo as técnicas da gestão participativa, muito mais além dos empregos de técnicos superiores. Técnicas todas elas de dominação racional que, em tudo impondo o superinvestimento no trabalho, concorre a debilitar ou a abolir as referências e as solidariedades colectivas. A instituição prática de um mundo darwinista de luta de todos contra todos, em todos os níveis da hierarquia, que encontra as dinâmicas da adesão à tarefa e à empresa na insegurança, no sofrimento e no stress, não poderia triunfar tão completamente, sem dúvida, se não contasse com a cumplicidade das disposições precarizadas que produzem a insegurança e a existência, em todos os níveis da hierarquia, e mesmo nos níveis mais elevados, especialmente entre os técnicos superiores, de um exército de reserva de mão-de-obra docilizada pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego. O fundamento último de toda esta ordem económica colocada sob o signo da liberdade é, com efeito, a violência estrutural do desemprego, da precariedade e da ameaça de despedimento que ela implica: a condição do funcionamento "harmonioso" do modelo micro-económico individualista é um fenómeno de massas, a existência do exército de reserva dos desempregados. Esta violência estrutural pesa também sobre o que chamamos o contrato de trabalho (sabiamente racionalizado e desrealizado pela "teoria dos contratos"). O discurso de empresa nunca falou tanto de confiança, de cooperação, de lealdade e de cultura de empresa como numa época em que se obtém a adesão de cada instante fazendo desaparecer todas as garantias temporais (três quartas partes dos contratos são temporais, a parte dos empregos precários não cessa de aumentar, o despedimento individual tende a não estar mais submetido a nenhuma restrição). Vemos assim como a utopia neoliberal tende a encarnar-se na realidade de uma espécie de máquina infernal, cuja necessidade se impõe aos próprios dominadores. Como o marxismo noutros tempos, com o qual, neste aspecto, tem muitos pontos em comum, esta utopia suscita uma formidável crença, a free trade faith (a fé no livre comércio), não só entre os que vivem dela materialmente, como os financeiros, os patrões das grandes empresas, etc., mas também entre os que extraem dela a sua razão de existir, como os altos executivos e os políticos, que sacralizam o poder dos mercados em nome da eficácia económica, que exige o levantamento das barreiras administrativas ou políticas susceptíveis de importunar os detentores de capitais na busca puramente individual da maximização do benefício individual, instituída em modelo de racionalidade, que querem bancos centrais independentes, que pregam a subordinação dos Estados nacionais às exigências da liberdade económica para os amos da economia, com a supressão de todas as regulamentações em todos os mercados, a começar pelo mercado de trabalho, a interdição dos défices e da inflação, a privatização generalizada dos serviços públicos e a redução das despesas públicas e sociais. Sem partilhar necessariamente os interesses económicos e sociais dos verdadeiros crentes, os economistas têm suficientes interesses específicos no campo da ciência económica para trazer uma contribuição decisiva, quaisquer que sejam os seus estados de alma a respeito dos efeitos económicos e sociais da utopia que eles vestem de razão matemática, à produção e à reprodução da crença na utopia neoliberal. Separados por toda a sua existência e, sobretudo, por toda a sua formação intelectual, quase sempre puramente abstracta, livresca e teoricista, do mundo económico e social tal como ele é, eles são particularmente inclinados a confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas. Confiando em modelos que praticamente nunca tiveram a oportunidade de submeter à prova da verificação experimental, propensos a olhar de cima os logros das outras ciências históricas, nas quais não reconhecem a pureza e a transparência cristalina dos seus jogos matemáticos, e das quais eles são quase sempre incapazes de compreender a verdadeira necessidade e a profunda complexidade, participam e colaboram numa formidável transformação económica e social que, mesmo se algumas das suas consequências lhes causam horror (podem contribuir para o Partido socialista e dar conselhos avisados aos seus representantes nas instâncias de poder), não lhes pode desagradar pois que, sob o risco de alguns falhanços, imputáveis nomeadamente ao que eles chamam por vezes bolhas especulativas, tendem a dar realidade à utopia ultraconsequente (como certas formas de loucura) à qual consagram a sua vida. E contudo o mundo está aí, com os efeitos imediatamente visíveis da posta em prática da grande utopia neoliberal: não apenas a miséria de uma fracção cada vez maior das sociedades mais avançadas economicamente, o crescimento extraordinário das diferenças entre os rendimentos, o desaparecimento progressivo dos universos autónomos de produção cultural, cinema, edição, etc., pela imposição intrusiva dos valores comerciais, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias colectivas capazes de contrabalançar os efeitos da máquina infernal, à cabeça das quais o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, generalizada, nas altas esferas da economia e do Estado, ou no seio das empresas, desta espécie de darwinismo moral que, com o culto do winner, formado nas matemáticas superiores e no salto elástico, instaura como normas de todas as práticas a luta de todos contra todos e o cinismo. Podemos esperar que a massa extraordinária de sofrimento que produz semelhante regime político-económico esteja um dia na origem de um movimento capaz de parar a corrida para o abismo? De facto, estamos aqui perante um extraordinário paradoxo: enquanto os obstáculos encontrados no caminho da realização da nova ordem ¿ a do indivíduo só, mas livre ¿ são hoje considerados como imputáveis a rigidezes e a arcaísmos, e enquanto qualquer intervenção directa e consciente, pelo menos quando vem do Estado, sob que aspecto for, é desacreditada de antemão, logo destinada a desaparecer em benefício de um mecanismo puro e anónimo, o mercado (do qual se esquece com frequência que é também o lugar do exercício de interesses), é na realidade a permanência ou a sobrevivência das instituições e dos agentes da antiga ordem em vias de desmantelamento, e todo o trabalho de todos as categorias de trabalhadores sociais, e também todas as solidariedades sociais, familiares ou outras, que fazem com que a ordem social não se afunde no caos, malgrado o volume crescente da população precarizada. A passagem ao "liberalismo" realiza-se de maneira insensível, logo imperceptível, como a deriva dos continentes, ocultando assim aos olhares os seus efeitos, os mais terríveis a longo prazo. Efeitos que se encontram também, paradoxalmente, dissimulados pelas resistências que suscita, desde logo, da parte dos que defendem a ordem antiga bebendo nas fontes que encerrava, nas antigas solidariedades, nas reservas de capital social que protegem toda uma parte da ordem social presente da queda na anomia. (Capital que, se não é renovado, reproduzido, está votado ao deperecimento, mas cujo esgotamento não é para amanhã). Mas essas mesmas forças de conservação, que são fáceis de tratar como forças conservadoras, são também, sob outro nexo, forças de resistência contra a instauração da nova ordem, que podem terminar sendo forças subversivas. E se podemos consequentemente conservar alguma esperança razoável, é porque existem ainda, nas instituições estatais e também nas disposições dos agentes (em especial, os mais vinculados a essas instituições, como a pequena aristocracia funcionarial), tais forças que, sob a aparência de defender simplesmente ¿ como serão imediatamente acusados ¿ uma ordem desaparecida e os privilégios correspondentes, devem de facto, para resistir à prova, trabalhar para inventar e construir uma ordem social que não tenha por única lei a busca do interesse egoísta e a paixão individual do lucro, e que prepare o caminho a colectivos orientados no sentido da busca racional de fins colectivamente elaborados e aprovados. Entre estes colectivos, associações, sindicatos, partidos, como não atribuir um lugar especial ao Estado, Estado nacional ou, melhor ainda, supranacional, quer dizer, europeu (etapa para um Estado mundial), capaz de controlar e de tributar eficazmente os lucros obtidos nos mercados financeiros e, sobretudo, de contrabalançar a acção destruidora que estes últimos exercem sobre o mercado de trabalho, organizando, com a ajuda dos sindicatos, a elaboração e a defesa do interesse público que, quer se queira quer não, não sairá nunca, nem sequer ao preço de algumas falsidades de escrita matemática, da visão do contabilista (noutra época diríamos do merceeiro) que a nova crença apresenta como a forma suprema da realização humana. Informação Alternativa Fevereiro 13, 2006
A FILARMÓNICA FRAUDE - UM POUCO DE HISTÓRIA Seis jovens, cujas idades variam entre os 17 e os 20 anos. Estudantes. Nomes: António Luís Linhares Corvelo de Sousa, José João Parracho, João José Pinheiro Brito, António Antunes da Silva, Júlio Vital dos Santos Patrocínio e João Manuel Viegas Carvalho. Característica comum: o gosto pela música, a preocupação de fazer diferente. Não é aventura, nunca foi aventura, essa entrega total à música que os levaria a atingir o ponto julgado indispensável para conquistarem uma posição no meio discófilo nacional. Foi um trabalho de pesquisa, de criação, que teve como objectivo imediato renovar, sem concessões piegas e ultrapassadas, a música ligeira portuguesa. Tê-lo-iam conseguido estes seis jovens componentes do agrupamento a que deram o nome de Filarmónica Fraude? O público e a crítica têm a palavra. Uma coisa é certa: o trabalho destes seis jovens não nasceu do improviso da ocasião, não é fruto de qualquer leviandade ou brincadeira que a sua juventude poderia desculpar. Há irreverência - isso sim. E, qualidade musical. Há um trabalho de equipa em que se sente a vontade de quebrar barreiras aparentemente instransponíveis. Há a certeza que a única fraude que existe pertence ao nome do conjunto (D.R.) Verdadeiro grupo-de-culto português, que começou por tocar (corria o Verão de 68) nas instalações da Torralta, no Alvor, onde foram descobertos pelo saudoso jornalista Fernando Assis Pacheco e pelo Duo Ouro Negro. O primeiro escreveu uma crónica elogiosa no Diário de Lisboa intitulada "Uma Fraude nas noites brancas do Alvor" Os segundos levaram uma cassete com alguns temas à editora Valentim de Carvalho que lhes faculta a gravação de algumas maquetas das canções. No entanto, o grupo acaba por assinar com a Philips, onde para além do album "popeia"grava ainda dois extended-play, em 1969. O 1º EP, que é a estreia do grupo, contém temas originais e adaptações da música popular portuguesa, da autoria de António Pinho e Luís Linhares: "Flor de Laranjeira", "Problema da Escolha", "O Menino" e "O Milhões". A crítica social, a mordacidade e ironia nas letras e a música com influências da pop inglesa (sobretudo Beatles), são imagens de marca que ficam desde logo a assinalar o conjunto. O êxito é imediato e a crítica é unânime em elogiar o trabalho, classificando a Filarmónica Fraude como um «caso muito sério» e «uma pedrada no charco e no marasmo da música portuguesa» ou ainda, como se escrevia na contracapa do disco, «a certeza que a única fraude que existe pertence ao nome do conjunto». Pouco tempo depois, um 2º EP vinha confirmar tudo quanto se dissera a respeito do primeiro: "Canção de Embalar", "Orícia", "Animais de Estimação" e "Devedor à Terra" cimentam a reputação que o grupo granjeara logo no início da carreira. E finalmente o album "Epopeia", cujo alvo principal eram os infortúnios dos descobrimentos e que por isso mesmo trouxe alguns dissabores junto aos censores da época; a começar logo pela capa (uma autêntica originalidade na altura, pelo feitio e modo de abrir), da autoria de Lídia Martinez, que a assinou «Lídia 69». A maqueta da capa não passou na censura, que obrigou ao corte da indicação do ano. A Filarmónica Fraude acaba nos finais de 1970 (sem editarem mais nenhum disco), dando depois lugar à Banda do Casaco. Em 1998 a Polygram Portuguesa edita o album em cd mas com uma masterização obtida directamente de um disco de vinil original; ou seja, com um som bastante medíocre, pelo facto de não se terem dado ao trabalho de fazer uma recuperação sonora em condições. É pena, até porque a qualidade do trabalho da Filarmónica Fraude é merecedora duma digitalização eficiente, mais que não seja para uma coveniente preservação futura. Esperemos que num futuro próximo tenhamos motivos de nos regozijarmos caso os responsáveis da editora nos consigam presentear com uma edição conjunta de todos os temas gravados pelo grupo. Outubro 3, 2005
Mais notas de leitura Para mim, há uma mancha moral e um narcisismo infantil na teoria desconstrucionista de Derrida segundo a qual "este texto não é senão um pré-texto que tem a boa sorte de que eu vou desconstruí-lo e lê-lo". Este texto não é um pré-texto, ele me dispensa admiravelmente bem. É possível, evidentemente, que eu o sirva ao traduzi-lo e transmiti-lo. É bem possível, por certo, que este texto seja esquecido, mas eu sou discípulo de Walter Benjamim e me lembro de ele ter afirmado que nenhum grande texto se perde, pois ele espera, nem que seja por mil anos. Devo, assim, dedicar-me a este texto que me precede em tudo. Ele não é um pré-texto, salvo na acepção de prefixo "pré" como primordial, prioridade, fonte. Ramin Jahanbegloo, George Steiner: À Luz de si Mesmo, pag. 88 O clássico representa uma fonte inesgotável de erros e de revelações, fonte do diálogo dos vivos, aquilo que Kierkegaard chamava de "passado presente". Idem, pág. 91 Lê-se até os comentários sobre os comentários, a leitura dos resumos substitui tudo. Aliás, eu adiantei em "Presenças Reais" uma hipótese segundo a qual esse bizantinismo compreende um medo quase físico da revelação do imediato. A televisão pode revelar todos os massacres, todas as torturas e todos os acontecimentos, de tal modo que o imediato se torna para nós distante, estranho e monstruoso, como se fôssemos crianças assustadas pelo cair da noite. Já sabemos por Pascal e Montaigne que a meta de toda a educação consiste em não ter medo de ficar sentado em um quarto silencioso. Ora, noventa por cento dos jovens, segundo as estatísticas, não podem mais ler sem ouvir música ou olhar a televisão com o canto dos olhos. Esse fenómeno mostra até que ponto temos medo do encontro, na acepção que Levinas deu a este termo, medo da nudez do encontro. O comentário serve, portanto, de forma protectora, de "embalagem". Idem, pp 92-93 Setembro 28, 2005
AS TROIANAS Hécuba Ó deuses! Fracos são os aliados que eu invoco, mas ao menos há qualquer coisa na simples evocação dos deuses, quando um de nós suporta um destino miserando. (...) Vejo a acção dos deuses, como eles erguem às alturas o que nada vale, e destroem o que parece ter grande valor. (...) Não é a mesma coisa, filha, morrer ou ver a luz do dia. Uma coisa é nada; na outra reside a esperança. Eurípides, As Troianas, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira, Ed. 70, Lisboa, 1996 Setembro 25, 2005
Um mestre de leitura Eu gostaria de que a lembrança que guardassem de mim - por pouco que eu perdure nas memórias - fosse a de um mestre de leitura, de alguém que passou sua vida a ler com os outros. (...) Essa leitura envolve uma responsabilidade, pois é uma palavra que contém nela a da resposta, é preciso pois responder a um texto, à presença e à voz de outrem. E isso se tornou difícil senão impossível em uma cultura em que o barulho é uma constante, que não reserva nenhum recanto de silêncio nem mesmo de paciência. O que quero dizer por paciência é a sua acepção do século XVIII, quando a etimologia prevalecia em fórmulas tais como: «Je souffre que vous veniez à moi» ou «Je souffre votre pensée.» Ler não é souffrir (sofrer, permitir), mas, a bem dizer, é estar pronto a receber um convidado em sua casa, ao cair da noite. A imagem que os grandes poetas reflectem (...) é a da acolhida ao pensamento, ao amor e desejo dos outros, pela prática da leitura, pela audição da música e pelo conhecimento da arte. É aprender com os outros a ouvir melhor. Eis porque o ensino sempre me foi indispensável, embora me fosse dado, falando materialmente, abandoná-lo várias vezes. Mas, na organização da minha existência, sempre busquei como que uma maneira de reunir ao meu redor leitores, a fim de presrvar a esperança de que, após a minha morte, alguns continuariam aamar os poetas e os filósofos que eu tanto amei. A sombra da americanização do mundo inteiro me persegue. Depois de ter viajado por diversos países, parecia-me que via chhegar a mim a América, esta América de uma libertação material do homem, por certo, mas também a da própria adversidade, do silêncio e da solidão. pp. 73-74 Eu não conheço um grande poeta que não seja um mestre da gramática ou um virtuoso da sintaxe pois não há sintaxe que não encerre uma visão de mundo, uma metafísica e também uma filosofia da morte. Dizer que em certas línguas o pretérito não existe, dizer que em hebraico não existem verbos no futuro é falar de uma visão global do universo, do homem e da identidade de cada um de nós. São as razões pelas quais nós nos estendemos detalhadamente sobre o que se chama de gramática e sintaxe. Depois vem o contexto histórico. Recuso totalmente a ideia de uma ficção que não aceite a biografia, a história e o contextual. Muito ao contrário, não existe, a meu ver, uma única frase de Madame Bovary que não reflicta a história do Segundo Império, da vida de Flaubert, da língua francesa e da crise da burguesia. Nenhum texto pode ter a pretensão de situar-se fora de um contexto que não se possa comparar à infinita torre de Babel da biblioteca imaginária de Borges. Dentro de um nível restrito, pois isso ultrapassa um pouco os meus meios, nós abordamos a semântica, a saber, o sentido do sentido, o estudo do mistério do sentido, a compreensão da intencionalidade à qual todos os meus livros se dirigem, por um viés ou um outro. Então, eu volto ao método medieval, com suas quatro etapas que percorrem a leitura, essa leitura tão pregnante e tão presente que a gente pode confessar que não entende um poema ou um parágrafo e que é preciso sabê-lo de cor. Isso não resulta de nenhuma técnica mas de uma metafísica que se faz amor, que se faz Eros. Pois o que se sabe de cor é inalienável; não se pode despojar quem quer que seja daquilo que ele traz em si em termos de conhecimento num mundo em que reinam a censura e a opressão, o barulho, o exílio em uma condição humana que se limita a uma segurança material vazia de toda interioridade. Grandes almas sobreviveram à opressão porque elas conheciam textos de cor. Saber de cor uma página de prosa não é um exercício, pois este logos entra dentro de nós, talvez muito difícil ou muito violento, inaceitável para nós, porém isso significa que o convidamos a morar na casa de nosso ser e que se aceita viver junto! É assumir o risco de que uma noite um texto, um quadro, uma sonata batam à porta de nossa morada (...) e pode acontecer que esse convidado destrua e incendeie totalmente a casa. (...) Porém cumpre aceitar assumir a idéia, acolher esse texto dentro de nós, não sei das palavras para descrever a riqueza dessa experiência que pratiquei mil vezes, especialmente lendo a Ética, de Spnioza, que é para mim uma referência última. Eu leio todos os dias Herâclito e certos poetas modernos como Paul Celau e quando, ainda assim, não compreendi esses textos, eu os decoro para que façam parte integrante de meu ser. A obra de repente me acolhe sem explicar-se, e eu tenho por fim acesso a esse poema. Não posso, nem por isso, retornar aos meus seminários clamando que finalmente compreendi a obra, o qne seria ao mesmo tempo arrogante e pretensioso. Entretanto, é verdade que a incompreensão se transformou em amor, em fertilidade, em ato de confiança para com aquilo que me escapa. pp. 75-76 (...) toda a verdadeira crítica é um acto de amor. (...)A meu ver, toda a boa leitura salda uma dívida de amor. pag. 77 idem Mas o que quer dizer, segundo o seu ponto de vista, ser judeu hoje em dia? «É primeiramente estar de malas prontas. [...] O destino de meus filhos poderia ser posto em causa porque nada lhes garante serem aceites pelos outros. É também sentir que a tensão entre Israel e a diáspora judaica é meu pão quotidiano, pois eu sou anti-sionista. Pode parecer arrogância pensar que o judeu é aquele que lê um livro com um lápis na mão, mas é uma das minhas definições. É também aquele que corrige os erros mesmo ao ler um jornal. [...] A religião judaica é a única para a qual o sábio é uma benção. p. 61 [...] Corrigir um texto é interpelar Deus dizendo-Lhe que se é fiel a esse câncer do pensamento, a essa patologia do absoluto que Ele colocou em nós [...]. É ter dentro de si o vírus de uma justiça absoluta e a loucura da ilusão. p. 61 [...] Não vivi eu até aos nossos dias nesse luxo extraordinário que é a segurança? p. 69 Idem George Steiner-Literatura e Arte Como diria Octávio Paz,«hoje a literatura e as artes estão expostas a um perigo diferente: estão ameaçadas não por uma doutrina ou um partido político, porém por um processo económico sem face, sem alma e sem direcção». Sem dúvida pode-se julgar essa evolução natural e necessária, mas isso é não compreender a verdadeira questão, que é a da ética da criação. É não ver que por falta de um itinerário de fidelidade, de exigência e de de exemplaridade expressa por uma longa pesquisa interior, os criadores de hoje não se proíbem de recorrer a qualquer mentira, nem a qualquer "mais ou menos", para fazer da sua criação um risco do espectáculo mediático em nossa sociedade. Num mundo em que a cultura se converteu no negócio dos grandes comerciantes de sabão em pó e espuma de barbear, que lugar poderia ser ocupado por aquilo a que Thomas Mann chamava «o significativo», isto é, «um fenómeno espiritual [...] que sai de seus próprios limites, exprime e simboliza algo de mais amplo e mais geral, espiritualmente falando?» É inútil, pois, cantar loas à democracia moderna, quando se assiste abertamente, na vivência do homem democrático, a um movimento de "mediocrização" das paixões culturais. Ramin Jahanbegloo, George Steiner: à Luz de Si Mesmo, Editora Perspetiva, S. Paulo, Brasil, 200, pp.19-20 Setembro 18, 2005
A Sensura A nossa sociedade autoriza tudo o que não a incomoda. Se isto já não é plenamente verdade nos nossos dias, e se estamos em crise, é porque o interesse imediato dos que estão no poder se encontra em contradição com os valores que fundamentam este mesmo poder. É-lhes necessário, por exemplo, incentivar o consumo que os enriquece, em detrimento da moral que os legitima. Pela primeira vez, o poder fundamenta-se na confusão e não na ordem. Daí a mentira generalizada, de que a língua sofre. A permissividade actual autoriza que se diga tudo porque este tudo já não significa nada. A palavra torna-se inofensiva por privação de sentido. A escrita sofre a mesma privação nas suas formas normalizadas: publicidade, jornalismo, best-sellers, que passam por escrita quando não o são. O objectivo da antiga censura consistia em tornar o adversário inofensivo, privando-o dos seus meios de expressão; a nova - que denominei sensura - esvazia a expressão para a tornar inofensiva, método mais radical e menos visível. Bernard Noel, in O Castelo da Ceia em: http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200506020005 Camus A filha do Oleiro Dibutades que amava um jovem recortou com um estilete a sombra do perfil dele sobre uma parede. Seu pai, ao ver o desenho, descobriu o género de ornamentação dos vasos gregos. O amor está no início de todas as coisas. Camus, Primeiros Cadernos, Ed Livros do Brasil, Lisboa, sd A experiência não é experimental. Não a provocamos. Sofremo-la. Mais paciência do que experiência. Nós aguardamos com calma - ou antes padecemos. Em qualquer prática: ao sair da experiência, não somos sábios, somos peritos. Mas de quê? Idem Céu de trovoada em Agosto. Aragem escaldante. Nuvens negras. No entanto, do lado do nascente, uma faixa azul, delicada, transparente. Impossível fixá-la. A sua presença é uma tortura para os olhos e para a alma. Porque a beleza é insuportável. Ela desespera-nos, eternidade de um minuto que desejaríamos prolongar pelo tempo fora. Idem E mesmo nesta tristeza que há em mim, que desejo de amar e que inebriamento apenas perante a visão de uma colina na raragem do fim da tarde! Desespero sorridente. Sem saída, mas que exerce sem cessar um domínio que se sabe inútil. O essencial: não nos perdermos, e não perder aquilo que, de nós, dorme no mundo. Idem Setembro 14, 2005
![]() PHILIP ROTH El escritor y sus fantasmas El autor de Patrimonio publica también un libro de artículos y entrevistas que buscan promover el debate sobre la responsabilidad moral de la literatura. En El oficio: un escritor, sus colegas y sus obras, el novelista estadounidense conversa con narradores como Primo Levi, Edna O'Brien, Aharon Appelfeld o Milan Kundera. JAVIER APARICIO MAYDEU BABELIA - 11-10-2003 Sabemos del interés del autor de Pastoral americana (1997) por las cuestiones que atañen al oficio de escribir desde la publicación de The Great American Novel (1973). Luego vino Reading Myself and Others (1975), un volumen compilatorio de entrevistas y ensayos que debemos considerar en muchos sentidos antecedente del que ahora nos ocupa, y que incluía su polémico ensayo Writing American Fiction (1961), en el que ya se ocupaba de los vínculos entre imaginación, ficción y realidad, denunciando que la norteamericana es una realidad tan desquiciada y excéntrica que a la imaginación le resulta difícil superarla. Esta idea da razón de la obsesiva inquietud de Roth por atrapar y comprender la condición del escritor, y de su extrema autoconciencia literaria. ¿Cómo demonios sacarse de encima la enojosa realidad a la hora de concebir ficciones?, ¿acaso es convertir en experiencia universal un infierno personal? Su entrañable conversación con Primo Levi, que escribió acerca de su supervivencia en Auschwitz, nos acerca las respuestas. ¿Qué paradoja se esconde en el hecho de que un régimen totalitario no siempre arruine la literatura? o ¿de qué modo supera el talento del creador la frustración de la censura? En el transcurso de su diálogo con Ivan Klíma, el autor checo, que escribió en la clandestinidad de una Praga comunista, nos advierte de que la censura impide el acceso al talento libre pero asimismo, dice, preserva la cultura de la tiranía de un mercado de productos basura, enseñándonos además que la grandeza de Kafka reside en haber sido capaz de escribir al margen de la política una obra que ilumina la historia contemporánea. ¿Perjudica a la creación literaria el exilio o la multiculturalidad, el desarraigo?, ¿debe ser la novela espejo de la vida o instrumento de conocimiento? Las conversaciones con Edna O'Brien y Milan Kundera se encaminan a dilucidar cuestiones como ésta, a sabiendas de que, como afirma el autor checo, "hoy día la gente prefiere juzgar a comprender, contestar a preguntar". Las jugosas y reflexivas páginas de El oficio: un escritor, sus colegas y sus obras muestran las alegrías y servidumbres del oficio de escritor, rindiéndose a la evidencia de que la creación artística y la realidad histórica del autor discurren por complejas vicisitudes. Roth regresa a la miscelánea introduciendo al lector en los entresijos de la creación literaria y de la misión del escritor, perdida toda esperanza de que aquellas viejas torres de marfil en las que esconderse de la realidad no resulten quimeras, y convencido de que en efecto vendrán más años malos y nos harán más ciegos. El autor de La mancha humana (2000) departe a sus anchas con sus maestros, ejerciendo de este modo el raro privilegio de compartir su propio universo literario con aquellos autores que contribuyeron a construirlo, entrevistándose con los escritores vivos que más han influido en su narrativa, casi todos ellos judíos como él y algunos, es el caso del ya fallecido Malamud o de Bellow, cuya obra comenta, integrantes de esa Jewish-American Fiction que despertó a gritos al monstruo dormido de la literatura norteamericana tras la Segunda Guerra Mundial. Hermoso libro el de Roth, un fecundo debate coral en torno a la responsabilidad moral del escritor, a su condición de memoria colectiva, de especulador ideológico, y a su necesario compromiso. En palabras de Sábato, a vueltas con el escritor y sus fantasmas. El oficio: un escritor, sus colegas y sus obras. Philip Roth. Traducción de Ramón Buenaventura. Seix Barral. Barcelona, 2003. 221 páginas. 17,50 euros. http://www.elpais.es/articulo.html?xref=20031011elpbabnar_3&type=Tes&d_date=&anchor=elpbabnar |